Em evento do PT, Janones ensina apoiadores de Lula a fazer fake news e enganar eleitores nas redes
Janones acusado de ensinar petistas a enganar eleitores
Deputado relatou métodos usados em campanhas digitais e afirmou que o importante é construir narrativas convincentes
O Partido dos Trabalhadores (PT) realizou, na terça-feira (9), em Brasília (DF), um treinamento direcionado à sua militância digital e aos apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O evento, apresentado como uma estratégia para organizar a atuação de simpatizantes nas plataformas digitais e fortalecer a defesa da democracia, teve como figura central o deputado federal André Janones (Avante-MG).
A iniciativa foi batizada de Porta-Vozes de Lula e contou também com a participação do presidente do PT e coordenador-geral da campanha, Edinho Silva, além do ministro Guilherme Boulos, titular da Secretaria-Geral da Presidência.
O programa prevê um site no qual apoiadores se cadastram para receber "missões" de disseminação de conteúdo pró-governo e antipositivo à oposição, distribuídas por meio de vídeos curtos, memes, cards e kits de mobilização digital.
Técnicas de comunicação e polêmica
Durante sua participação na transmissão, Janones compartilhou estratégias de comunicação que utilizou em disputas eleitorais anteriores. As declarações rapidamente geraram reações negativas entre adversários políticos, que acusaram o parlamentar de instruir militantes a manipular a percepção pública sem necessariamente veicular mentiras explícitas — técnica que especialistas em comunicação política chamam de framing ou construção seletiva de narrativas.
O próprio deputado foi enfático sobre sua postura atual em relação aos limites do jogo eleitoral:
"Eu estou me lixando de falar que é de baixo nível. Eu sei o que está em jogo; o que está em jogo é a democracia do nosso país. Antes, eu dizia que valia quase tudo. Eu mudei o meu discurso nesses quatro anos. Hoje, vale tudo para salvar a democracia."
Para Janones, a estratégia central não consiste em divulgar informações falsas, mas em redirecionar o foco das discussões públicas para narrativas mais favoráveis ao seu campo político. Segundo ele: "Desviar o foco não é mentir não, é você contar uma outra história."
VEJA VÍDEO:
Janones foi a um evento do PT ensinar militante a “não mentir”: só rachar a verdade até ela virar narrativa.
— Sueli lei🇧🇷🇧🇷🇧🇷🇧🇷🇧🇷 (@LeiSueli6718) June 11, 2026
Pega uma foto, coloca um “pode”, inventa o resto e chama de defesa da democracia.
Eles querem tanto transformar “fake news” em crime que, se a lei valesse de verdade, pic.twitter.com/Wdd2xhNrNl
O caso Bolsonaro e Collor
Um dos exemplos mais comentados foi o relato envolvendo fotografias do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ao lado do ex-presidente Fernando Collor durante a campanha de 2022.
Janones descreveu em detalhes como utilizou as imagens para construir uma narrativa sobre uma possível nomeação de Collor para o ministério bolsonarista:
"Liguei pros meus assessores e falei imprime pra mim achei no google imagens e imagens do lula do bolsonaro com o colo imprime colorido para aparecer foto me entregar em cinco minutos eu abri uma live falei urgente eu consegui aqui exclusiva as fotos que comprovam a ligação do Bolsonaro com o color tá aqui as fotos e se o bolsonaro foi reeleito presidente ele poderá nomear o Collor ministro. E poderia mesmo, não tem nada que impediu. O Collor estava com os direitos políticos dele ativos, ele poderia ser nomeado. Então, não era uma mentira."
O raciocínio exposto pelo parlamentar é revelador de uma lógica comunicacional específica: ancorar a narrativa em um fato tecnicamente verdadeiro — a elegibilidade de Collor — para ampliar uma percepção negativa sobre o adversário.
A tática explora o que comunicólogos denominam "verdade incompleta", em que a ausência de contradição factual não elimina o potencial de indução ao erro.
O celular do ex-ministro Bebianno
Outro episódio descrito por Janones envolveu a divulgação pública de mensagens supostamente extraídas de um aparelho celular atribuído ao ex-ministro Gustavo Bebianno. O deputado relatou ter anunciado nas redes sociais que revelaria conteúdos inéditos do dispositivo, o que gerou enorme repercussão — mesmo que o material, posteriormente, não contivesse informações de relevância política:
"Não é mentir, não é criar fake news, é contar a sua versão dos fatos. E aí, o que eu fiz na época? Eu tinha um celular que me foi passado por uma pessoa que coordenou a campanha do Bolsonaro em 2018 e que era então meu aliado. E nesse celular tinha conteúdos do celular do Bebianno, imagens de bastidores que ninguém nunca tinha visto. Então, eu tinha mesmo esse conteúdo. Eu fui na rede social e falei, olha, recebi os conteúdos do celular do Bebianno e vou soltar a qualquer momento. E eles tomou conta da internet, desviou o foco de lá, eles tremeram tudo. Não era uma mentira, eu tinha o conteúdo. O conteúdo era o Bebianno servindo água para o Bolsonaro, conversa de bastidor, não tinha nada demais."
O relato ilustra uma estratégia calculada de administração da expectativa pública: criar antecipação e urgência em torno de uma revelação que, na prática, era inócua — mas cujo simples anúncio já era suficiente para dominar o ciclo noticioso daquele momento.
"Razão não ganha eleição"
Janones também fez uma afirmação que concentrou críticas adicionais ao argumentar que a apresentação de resultados e entregas do governo não é suficiente para garantir vitória nas urnas:
"Razão não ganha eleição, nunca ganhou e nunca ganhará. O Lula foi o que mais entregou, o que mais transformou o país, ele foi o que melhorou a renda das pessoas. Isso não ganha eleição."
A declaração levanta questões sobre como o PT pretende conduzir sua comunicação nas eleições de 2026, colocando a disputa narrativa no centro da estratégia — acima, segundo o próprio Janones, dos méritos governamentais.
Boulos admite vantagem da direita nas redes
O ministro Guilherme Boulos também fez um diagnóstico contundente durante o evento. Chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, ele reconheceu que a direita ainda lidera os embates digitais e que a esquerda precisa aprimorar sua organização nas plataformas:
"As redes digitais, esse é um ponto em que eles ainda estão na nossa frente. É preciso ter humildade de reconhecer. Frequentemente, nos embates de rede, eles têm ganhado. É pelo algoritmo, big techs e eles têm mais grana? Tudo isso é verdade. Mas tem uma outra coisa, que às vezes a gente não fala, que é a organização digital."
A admissão de Boulos evidencia que o lançamento do programa Porta-Vozes de Lula não é apenas um exercício de comunicação, mas uma resposta estratégica a uma percepção interna de desvantagem competitiva no ambiente digital — cenário que tende a se acirrar conforme a corrida eleitoral de 2026 se aproxima.
Repercussão e debate sobre os limites da comunicação política
As falas do deputado repercutiram amplamente entre opositores do governo, que as interpretaram como uma defesa aberta de técnicas voltadas a induzir eleitores ao erro por meio da construção de narrativas politicamente favoráveis — ainda que lastreadas em fatos verdadeiros ou parcialmente verdadeiros.
O episódio reacendeu o debate sobre os limites éticos e legais da comunicação política nas redes sociais, o papel de partidos e lideranças na disseminação de informações durante campanhas eleitorais, e a crescente tensão entre liberdade de expressão e regulação do discurso político digital no Brasil.
Até o momento, o PT sustenta que o treinamento teve como objetivo capacitar sua militância para ampliar o alcance de conteúdos do governo nas plataformas e fortalecer a presença de apoiadores de Lula no ambiente online — nos espaços onde, segundo Edinho Silva, o próprio presidente não consegue comparecer pessoalmente.
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